Sebastião agradeceu a Seu Antônio pelo troco e levou as
coisas para a carroça. Um saco daqueles de arroz e dois quilos de farinha de
mandioca estavam até com um preço razoável. “Pessoa boa, Seu Antônio”, pensou.
Sua mercearia era pequena e era a única no caminho para o centro de Juazeiro do
Norte e, mesmo assim, não era careiro. E olha que dali da casa de Bastião até a
cidade eram umas boas léguas. Era uma lojinha comum de interior: uma mesinha de
madeira onde ficavam a caixa registradora e uma daquelas bombonieres giratórias
que hipnotizam as crianças; prateleiras com margarina, leite, biscoito, um ou
outro produto de limpeza; sacos de arroz, feijão, milho, farinha e fumo de rolo
no chão. Seu Antônio ficava numa cadeira de balanço com encosto e assento de
palha em frente à mercearia, esperando a freguesia, e só se levantava mesmo na
hora de receber o pagamento. Chapéu de couro, calvo e sempre com uma camisa
abotoada apenas até a metade, o comerciante deitava, dia após dia, os olhos
longos pelo horizonte na esperança de uma nuvem mais escura se aproximar para
pelo menos dar uma trégua no mormaço.
Sebastião deu uma tapinha carinhoso em Juvita, subiu na
carroça e pegou o rumo de casa.
Juvita era a jumenta da família há mais de 20 anos. Eles
tinham certeza que ela sabia ir dali até a casa sozinha, embora nunca tivessem
testado. “Melhor não arriscar perder a bichinha”, dizia Dona Helena, mãe de
Sebastião. Foi ela que deu o nome à
jumenta, por causa de um forró antigo de Ary Lobo que ouvia quando pequena.
O rapaz tinha mania de conversar com o animal:
- Ave Maria, Juvita, tava era com saudade de ti. Pense na agonia
de ver tu toda tristonha daquele jeito. – Juvita andara meio adoentada. – Bom é
assim, corada. Mas também! Depois daquelas cenouras que mainha mandou buscar lá
na casa de Seu Leonel...
Sebastião amava a jumenta mais do que amava muita gente de
sua família. Cresceu com ela, brincando, correndo pelas terras ali perto. Era
até mais novo que ela, tinha 20 anos e ela uns 21, não sabia direito. Seu
Leonel a tinha dado para Dona Helena bem novinha, como presente de casamento
com Zé Maria. Juvita sabia de todos os segredos do menino, mais que todo mundo.
Ao menos, já ouvira todos eles. Alguns, mais de uma vez.
- Cheguei, mainha! Aqui a farinha e o arroz da senhora! –
gritou Sebastião ao colocar as coisas na cozinha, sem resposta.
Andou por aquela terra batida que conhecia bem. Para trás
foi ficando sua casa. Modesta, mas muito bem cuidada. De alvenaria, com reboco,
e com a fachada toda pintada de amarelo: o restante era pintado de branco. A
porta cor de madeira escura estava bastante lascada nas extremidades, devido à
idade. Tinha um banheiro do lado de fora e três cômodos: a copa, o quarto de
Dona Helena e Zé Maria e o quarto de Bastião e seus dois irmãos mais novos,
Cícero e Pedro, sendo esse último o caçula.
No quarto dos irmãos havia uma cama, um beliche baixo,
desses em que mal dá para sentar na parte de baixo, um gaveteiro e uma sanfona
vermelha perto da cama do mais velho. Mas depois voltaremos à sanfona. Acima
dela, um pôster pregado na parede. Era uma imagem com uma selva ao fundo, havia
folhas e dois troncos. Em primeiro plano, um chimpanzé e, ao seu lado, Dorothy
Lamour, usando um vestido vermelho com umas estampas amarelas, que se estendia
até perto do joelho direito e deixava a coxa esquerda à mostra. Dorothy foi uma
estrela do cinema americano dos anos 30 para frente. O filme do pôster era A
Princesa da Selva e o título se acanhava pequeno abaixo do nome da atriz. Nada
importava mais ali do que Dorothy.
Essa é uma das coisas que você tem que saber sobre Sebastião:
Dorothy era seu amor platônico. A mulher era mais linda que a boniteza, segundo
ele. Aos 11 anos, foi ao cinema pela primeira vez assistir a esse mesmo filme
numa mostra de películas antigas no Cine Eldorado lá no centro de Juazeiro. Sempre
teve curiosidade para saber como era um cinema por dentro e resolveu tentar se
infiltrar. Conseguiu se esgueirar durante um cochilo do rapaz da bilheteria, adentrou
a sala no meio do filme e, quando olhou para a tela, viu a imagem daquela
mulher que o paralisou completamente. Bastião não conseguia piscar os olhos nem
sentia a menor falta disso. Os olhos grandes e delineados da atriz estendiam-se
pela projeção em preto e branco. Dorothy
foi como um feitiço e o menino ali ficou até acabar o filme. Na saída,
surrupiou o bendito pôster pregado num cavalete em meio à confusão da saída do
cinema. Quando voltou para casa, colocou-o logo na parede e ali está até o
momento da nossa história, 1974.
– Vou lá em Rosinha! – Anunciou Bastião.
- Tu já vai sair, seu cabra?! Acabou de chegar! Volte tarde
não que teu pai pediu pra tu ajudar ele com a cerca e não dá certo fazer isso
de noite. – Dona Helena sabia que não adiantava pedir para ele ficar quando se
tratava de Rosinha.
- Viu, viu... Bença! – e saiu avexado pelo terreiro da
frente da casa em direção à estradinha de terra, sem ouvir a resposta da mãe.