segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Prefácio

Sebastião agradeceu a Seu Antônio pelo troco e levou as coisas para a carroça. Um saco daqueles de arroz e dois quilos de farinha de mandioca estavam até com um preço razoável. “Pessoa boa, Seu Antônio”, pensou. Sua mercearia era pequena e era a única no caminho para o centro de Juazeiro do Norte e, mesmo assim, não era careiro. E olha que dali da casa de Bastião até a cidade eram umas boas léguas. Era uma lojinha comum de interior: uma mesinha de madeira onde ficavam a caixa registradora e uma daquelas bombonieres giratórias que hipnotizam as crianças; prateleiras com margarina, leite, biscoito, um ou outro produto de limpeza; sacos de arroz, feijão, milho, farinha e fumo de rolo no chão. Seu Antônio ficava numa cadeira de balanço com encosto e assento de palha em frente à mercearia, esperando a freguesia, e só se levantava mesmo na hora de receber o pagamento. Chapéu de couro, calvo e sempre com uma camisa abotoada apenas até a metade, o comerciante deitava, dia após dia, os olhos longos pelo horizonte na esperança de uma nuvem mais escura se aproximar para pelo menos dar uma trégua no mormaço.

Sebastião deu uma tapinha carinhoso em Juvita, subiu na carroça e pegou o rumo de casa.

Juvita era a jumenta da família há mais de 20 anos. Eles tinham certeza que ela sabia ir dali até a casa sozinha, embora nunca tivessem testado. “Melhor não arriscar perder a bichinha”, dizia Dona Helena, mãe de Sebastião.  Foi ela que deu o nome à jumenta, por causa de um forró antigo de Ary Lobo que ouvia quando pequena.

O rapaz tinha mania de conversar com o animal:

- Ave Maria, Juvita, tava era com saudade de ti. Pense na agonia de ver tu toda tristonha daquele jeito. – Juvita andara meio adoentada. – Bom é assim, corada. Mas também! Depois daquelas cenouras que mainha mandou buscar lá na casa de Seu Leonel...

Sebastião amava a jumenta mais do que amava muita gente de sua família. Cresceu com ela, brincando, correndo pelas terras ali perto. Era até mais novo que ela, tinha 20 anos e ela uns 21, não sabia direito. Seu Leonel a tinha dado para Dona Helena bem novinha, como presente de casamento com Zé Maria. Juvita sabia de todos os segredos do menino, mais que todo mundo. Ao menos, já ouvira todos eles. Alguns, mais de uma vez.


- Cheguei, mainha! Aqui a farinha e o arroz da senhora! – gritou Sebastião ao colocar as coisas na cozinha, sem resposta.

Andou por aquela terra batida que conhecia bem. Para trás foi ficando sua casa. Modesta, mas muito bem cuidada. De alvenaria, com reboco, e com a fachada toda pintada de amarelo: o restante era pintado de branco. A porta cor de madeira escura estava bastante lascada nas extremidades, devido à idade. Tinha um banheiro do lado de fora e três cômodos: a copa, o quarto de Dona Helena e Zé Maria e o quarto de Bastião e seus dois irmãos mais novos, Cícero e Pedro, sendo esse último o caçula.

No quarto dos irmãos havia uma cama, um beliche baixo, desses em que mal dá para sentar na parte de baixo, um gaveteiro e uma sanfona vermelha perto da cama do mais velho. Mas depois voltaremos à sanfona. Acima dela, um pôster pregado na parede. Era uma imagem com uma selva ao fundo, havia folhas e dois troncos. Em primeiro plano, um chimpanzé e, ao seu lado, Dorothy Lamour, usando um vestido vermelho com umas estampas amarelas, que se estendia até perto do joelho direito e deixava a coxa esquerda à mostra. Dorothy foi uma estrela do cinema americano dos anos 30 para frente. O filme do pôster era A Princesa da Selva e o título se acanhava pequeno abaixo do nome da atriz. Nada importava mais ali do que Dorothy.

Essa é uma das coisas que você tem que saber sobre Sebastião: Dorothy era seu amor platônico. A mulher era mais linda que a boniteza, segundo ele. Aos 11 anos, foi ao cinema pela primeira vez assistir a esse mesmo filme numa mostra de películas antigas no Cine Eldorado lá no centro de Juazeiro. Sempre teve curiosidade para saber como era um cinema por dentro e resolveu tentar se infiltrar. Conseguiu se esgueirar durante um cochilo do rapaz da bilheteria, adentrou a sala no meio do filme e, quando olhou para a tela, viu a imagem daquela mulher que o paralisou completamente. Bastião não conseguia piscar os olhos nem sentia a menor falta disso. Os olhos grandes e delineados da atriz estendiam-se pela projeção em preto e branco.  Dorothy foi como um feitiço e o menino ali ficou até acabar o filme. Na saída, surrupiou o bendito pôster pregado num cavalete em meio à confusão da saída do cinema. Quando voltou para casa, colocou-o logo na parede e ali está até o momento da nossa história, 1974.


– Vou lá em Rosinha! – Anunciou Bastião.

- Tu já vai sair, seu cabra?! Acabou de chegar! Volte tarde não que teu pai pediu pra tu ajudar ele com a cerca e não dá certo fazer isso de noite. – Dona Helena sabia que não adiantava pedir para ele ficar quando se tratava de Rosinha.


- Viu, viu... Bença! – e saiu avexado pelo terreiro da frente da casa em direção à estradinha de terra, sem ouvir a resposta da mãe.